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"EU" - O universo particular - por Yuri Lucchesi



“EU”

O universo particular



Notas introdutórias



Esse texto é fruto de uma série de reflexões. São resumos de observações pessoais a respeito desse universo próprio existente em cada ser humano a quem designamos de “eu”, mas que não aceitamos por imposições sociais.



Introdução



“Há pessoas que vivem buscando métodos de ser melhor, dizem que precisam do que as deixem se sentir bem em meio aos outros, querem ser amigas de todos, tentam muitas vezes mudar o que são em sua essência para conquistar determinadas amizades, porém se esquecem do próprio valor e que amizades verdadeiras existem pelo que somos verdadeiramente. Há algumas coisas que precisamos pensar se quisermos ser alguém “bom pra todos”, que implica, antes de tudo, em olharmos pra nós mesmos e descobrirmos o que de fato estamos buscando. Primeiramente precisamos definir em nossas mentes o que é ser bom, o que é ser melhor, o que é ser sociável e enfim entender a diferença entre mudar e moldar e então olhar para nós mesmos e descobrir o que de fato vai nos deixar feliz em meio às pessoas e quais amigos, de fato, queremos ter. Se seguirmos essas ideias vamos parar e refletir que temos um valor próprio e é esse o único valor que temos que demonstrar, o resto acontece naturalmente.” (Bruna Moreli)



1. Do bom e do ruim

A colocação genérica entre bom e ruim não entra em méritos essenciais de caráter. Essa rotulação, talvez equivocada, trata da compatibilidade de humores e atitudes cotidianas ligadas às nossas observações subjetivas às pessoas do nosso círculo de convivência. Em nada, em princípio, possui ligação com os conceitos de “maldade” ou “bondade” baseados em conceitos éticos e morais.

Dito isso, ser "ruim" é algo que depende de muitos fatores: se o dia está sendo bom ou ruim; se estamos com algum problema no trabalho ou na família, até mesmo de saúde; se tivemos uma boa noite de sono; mas principalmente, se nossa atitude é a que esperavam. Infelizmente o conceito de "bom" e de "ruim" vai de uma expectativa e da perspectiva de quem observa. Acho que somos pessoas boas que podem, muitas vezes, agir de forma "ruim".

O resultado dessa equação é que vale pra dizer se somos ou não "bom". Mas ainda assim, aquilo que pode ser "bom" pra um, pode ser "ruim" para outra pessoa e vice versa.



2. Ser melhor

Não queira ser melhor, queira ser você mesmo. Só não espere que te aceitem com suas diferenças; isso é mais difícil do que ser melhor, pois para ser melhor basta agir e falar o que as pessoas querem e da forma como elas querem, no momento em que elas querem. É só mudar seu jeito, seu corpo e sua personalidade diante de cada circunstância. É só aprender com os erros dos outros (em alguns casos, apontá-los) e esconder os seus. Ser melhor é fácil. Difícil é ser você mesmo e ser aceito por isso. Sim... Sermos nós mesmos é difícil... Mas dá a leveza de saber que estamos sendo aquilo que somos e nos tira a culpa e o peso de tentarmos ser aquilo que as pessoas esperam. Mas sermos nós mesmos às vezes implica em darmos conta que não somos perfeitos, então a mudança cai no que foi dito acima; se ela não for por nós mesmos, porque nos sentimos bem com ela, só vai nos amargurar ainda mais, porque além de nos sentir frustrados pelo que somos vamos ficar pior tentando ser o que os outros querem que sejamos.


3. Ser sociável
Ser sociável vai muito além de moldar atitudes. Ser social é antes de tudo entender o próximo e permitir que haja empatia. É se interessar pelo que está sendo dito, é participar de conversas, é permitir-se debater de forma madura sem se digladiar. As pessoas não precisam de gente que molda suas atitudes. As pessoas precisam de gente que aceite as delas. Mas as pessoas também querem ouvir que estão erradas quando estão. A diferença entre ter muitos amigos e ter verdadeiros amigos está no que as pessoas podem esperar de você. Risadas em uma piada ou num assunto divertido sustentam uma amizade por uma hora. Lágrimas quando o outro está triste pode sustentar uma amizade por anos.



4. Mudar x moldar

Ninguém é perfeito. Temos apenas que aceitar nossos defeitos e qualidades. Podemos sim tentar melhorar e modificar certas características. Mas mudar é diferente de moldar. Mudar é algo interno, parte de dentro; moldar é algo que vem de fora. Quando mudamos é porque vemos que precisamos mudar. Quando moldamos, estamos nos adaptando à determinada situação. De certa maneira, quando moldamos estamos atuando.

A mudança tem que ser uma consequência e não um fim. Ela não se extingue em si mesma. Deve ser um processo contínuo fruto do aprendizado cotidiano. Mas a motivação deve ser interna. Diria que mudar é um processo evolutivo. Se quisermos evoluir como pessoas, devemos mudar de dentro pra fora, não simplesmente nos adequando ao meio, mas justamente nos adequando como forma de reação ao meio. Às vezes as mudanças serão positivas ao meio e às vezes serão negativas. Mas é como disse, tem que vir de dentro, do aprendizado, da essência, da soma das experiências positivas e negativas. Um fruto a ser colhido da imensa árvore que é o aprendizado humano, onde cada galho, cada flor e cada folha são expressões singulares de sucessos e dissabores, mas a raiz é a essência, aquilo que nos faz “NÓS”, aquele “toque especial” que nos faz quem de fato somos, cada um, um “EU” único e totalmente próprio.

Já a moldagem não. É um processo externo, frio e com um único fim de adaptação e não de evolução. Quando rimos de uma piada que não gostamos ou concordamos com algo que não admitimos, estamos nos moldando e não mudando. É uma camuflagem. Uma persona que usamos para tentar mostrar algo que não temos e não somos.

Sim, em primeira observação a moldagem é mais "eficaz" para a sociabilização. Ela permite que as pessoas "gostem" de estar com a gente porque nos "tornamos simpáticos", sociáveis. Mas essas "amizades" são fugazes. Já na mudança ocorre um processo inverso. A mudança com a manutenção da essência nos tornará, em primeiro momento, "antipáticos" e, de certa forma, repulsivos. As pessoas nem sempre irão querer estar perto de nós. Mas em longo prazo as pessoas vão DESEJAR estar próximas porque verão que podem contar conosco para vida inteira. Há que se admitir, e talvez esse seja já o primeiro obstáculo do aprendizado, que existem pessoas cuja essência já é capaz de atrair as pessoas para próximo de si. São pessoas que se aproximam naturalmente. E é importante aceitar caso não se seja assim.

O mais importante não é a quantidade de pessoas que se acercam, mas sim a qualidade das pessoas que se mantém! Essa é a principal questão entre mudar e moldar; isso não quer dizer que precisamos nos moldar para conseguir isso. Independente do meio, temos de conquistar as pessoas pelo que somos, pelo que fazemos e pelo que pensamos de fato. Isso não implica em ser alguém repulsivo, mas sim em entender que cada pessoa se aproximará de forma natural se isso tiver que acontecer. Não precisamos rir de tudo para que gostem da gente. Ou rimos porque gostamos do que ouvimos ou não rimos. A pior coisa que alguém pode fazer é moldar-se.

A moldagem é como uma brasa sobre o gelo. Ela derrete a superfície que se adapta e muda sua forma e assim que a brasa se apaga, volta ao seu estado original. Mas se o gelo muito se molda uma hora a brasa atinge o interior ou deforma de vez o gelo. Assim somos nós; se nos moldarmos a tudo e a todos, uma hora deixaremos que o meio atinja nosso coração e nossa essência, e quando virmos, já teremos uma forma completamente diferente daquela que deveríamos ter pelo que somos. Em suma, se formos simpáticos pela necessidade de ser, uma hora mudaremos nossa essência.



5. Nós mesmos, si mesmo, eu mesmo



Há um estudo que diz que a palavra que a pessoa mais utiliza durante a sua vida é a palavra “eu”. Mas esta não é a primeira palavra que pronunciamos. Nossas primeiras palavras se referem a pessoas e objetos especiais. Elas surgem da necessidade humana de interagir e manter próximo de si as pessoas e coisas que mais importam para nossa vida. É uma questão de sobrevivência saber chamar os pais e saber pedir o “mamá”. Mas analisando de uma forma mais complexa, mostra a dificuldade que o ser humano tem de entender o que de fato significa essa palavra tão proferida, este famigerado “eu”.

Quando uma criança aprende a referir sua colocação espacial com o tão simbólico “eu” um novo mundo se abre no processo evolutivo do ser humano. Ela entende que “mamãe”, “papai” e “mamá” não serão suficientes para ajudá-la a sobreviver no mundo. Ela precisa afirmar a sua presença, ela precisa justificar sua permanência e argumentar suas necessidades com esse pronome no início das frases. E assim permanece por toda sua vida. Uma das lições mais complexas de gramática, complexa no sentido de que na prática ninguém o executa, é que na existência de mais de um pronome, o “eu” vai em segundo lugar! E isso tem uma razão óbvia: o “eu” nunca estará em segundo lugar neste universo.

Cada universo é, de fato, único e particular. Nele cabe uma única pessoa: “eu”. Cada percepção, cada reação, cada estímulo, cada motivação é uma forma de interação deste universo próprio com o universo alheio. Mas, dentro de nós, somos sim a pessoa mais importante do universo. Esse egoísmo existencial, inato e particular é lógico e invariável: cada “eu” só pode viver o seu universo.

Mas quem de fato é este “eu”? Essa é uma pergunta que profissionais passam anos a fio tentando desvendar em letras de livros baseados em teorias e observações experimentais, mas que, ainda assim, conceituam de forma diversa. Se conceituar o “eu” é algo extremamente complexo, é fácil perceber que aceitá-lo é quase impossível.

Aceitar este “eu” é tornar-se responsável por cada virtude e defeito que esse universo particular possui. É aceitar a culpa e o louro de cada atitude, cada expressão deste egoísmo. Mas não é de fato isso que o ser humano quer. O ser humano não quer ser responsável pelas consequências de suas ações e assumir este “eu” seria aceitar que é responsável por cada problema que ele observa no seu mundo e no mundo comum. Aceitar este “eu” é assumir que não se pode mais culpar as oportunidade ou a falta delas por nada; é se assumir causador de cada dor que se sente; é entender que este mundo não é um lugar “ideal” para viver; a culpa é dele. Mas aí se inicia outro problema: o ideal de um “eu” é diferente do outro.

E nessa interação de incertezas próprias a respeito do “eu” é que se inicia o processo de mudança ou moldagem. Cada um quer a perfeição do seu universo e esta só é possível se houver uma interação harmônica com os universos alheios. E é nessa busca desenfreada pela suposta “perfeição” particular que o ser humano deixa de tentar entender e aceitar esse “eu”. O ser humano deixa de olhar as imperfeições do seu universo e entendê-las como características peculiares; deixa de observá-las e buscar conhecimentos e métodos de corrigi-las de forma profunda; uma modificação conceitual e essencial do “eu”. É nesse momento que o ser humano recorre a sua principal característica: a moldagem!

Ele “esquece” seus defeitos ao invés de aceitá-los; ele disfarça seus defeitos ao invés de confessá-los; ele traveste-se de um “eu” completamente estranho na busca desesperada pela mais perfeita interação do seu universo com o universo alheio para que o universo comum o aceite e é aí que o universo particular entra em colapso. Assim como nosso universo particular existe para interagir com os demais, ele é totalmente intolerante com contradições internas. A raiz entra em conflito com os galhos, as folhas e as flores. Os frutos deixam de aparecer ou surgem com defeitos. A árvore adoece e torna-se infrutífera. E como toda arvora doente, as folhas amarelam, as flores murcham, os galhos enfraquecem e uma hora a árvore morre.

Esse é o desafio principal do ser humano durante sua jornada terrena: entender, aceitar e aprimorar este universo particular. Entender o que de fato sua existência significa perante o mundo, aceitar sua essência observando suas qualidades e seus defeitos que o tornam singular e aprimorar esse universo através da aquisição de experiências e aprendizados, mudando de dentro pra fora, tornando-se melhor para si próprio e corrigindo os defeitos que nos fazem adoecer.



Em suma, o objetivo maior da existência é buscar a harmonia nesse universo singular. E para isso o ser humano deve aceitar esse “eu” da forma como de fato é e aceitar o conhecimento que adquire, mudando de dentro para fora, corrigindo as imperfeições que impedem esta harmonia e não viver inserindo contradições pessoais, aumentando ainda mais este conflito particular existente em cada universo.

(Yuri Lucchesi)




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